A transformação do Brasil num país majoritariamente urbano foi processada com extrema rapidez e de forma não planejada, provocando assim, um contencioso social enorme. As cidades incharam, como conseqüência, grandes deformações foram incrustradas em meio aos seus desenvolvimentos.
O centro da preocupação de qualquer cidadão e ainda mais dos governantes, deve ser buscar formas de dar respostas a esse contencioso que foi forjado. Duas tarefas são fundantes: em primeiro lugar, enfrentar os graves desajustes sociais que afetam as cidades, sobretudo suas comunidades mais pobres. O fato é que nas zonas periféricas se acumularam gravíssimos problemas. Instaurou-se um descompasso entre as demandas oriundas dessa realidade e a capacidade de dar respostas das administrações municipais. As péssimas condições de vida do povo desses lugares retratam a abissal desigualdade social que há no Brasil. As cidades com suas periferias – onde o povo padece toda sorte de privações – refletem as distorções do modelo de desenvolvimento adotado até bem pouco tempo. É uma face da concentração de renda e da desigualdade.
Por estes motivos a prioridade é dar resposta a essa situação dramática e perversa que impera nas comunidades pobres. Como? Para que progressivamente sejam atenuados os traços dessa desigualdade social é preciso que o Estado avance na promoção da universalidade e da qualidade dos serviços, principalmente da saúde, da educação e da moradia. O incremento dessas políticas públicas só é possível com uma ação conjunta dos governos federal, estadual e municipal. Se não há acesso a esses três serviços e se estes não são prestados com qualidade, não há como fazer para que se amainem as desigualdades. Trata-se então, de uma necessidade de ampliação e aprofundamento democrático para se enfrentar essa herança de exclusão social.
Segundo, outras questões afetam a cidade em seu conjunto: meio ambiente, transporte, segurança pública e participação popular. O processo de urbanização caótico e o modelo de desenvolvimento medíocre que não buscou harmonizar as atividades econômicas com a preservação ambiental devastaram as cidades, destruindo matas e poluindo rios. O saneamento, apesar dos esforços do governo federal, esta longe de ser universal. O impacto é generalizado, mas mesmo nessa temática são os pobres os que sofrem mais, muitos vivendo em áreas de risco e em locais insalubres.
Na questão do transporte é imperativo pensar alternativas criativas. Se não há transporte coletivo ágil e de qualidade a cidade toda é atingida. É um contencioso que foi se acumulando, se agravando porque não se tratou adequadamente, por este motivo não existem mais saídas suaves. Esse é um problema que deveria ter recebido atenção e investimento ao longo dos anos para que não se chegasse ao estrangulamento que várias cidades se encontram. O transito caótico e a lentidão do sistema de transporte coletivo rebaixam a qualidade de vida das pessoas e oneram os municípios.
Ante a crescente criminalidade e violência urbana a segurança pública tornou-se preocupação destacada dos cidadãos. A violência atinge a todos. Embora tenha um recorte claro de que na maioria das vezes os ricos são alvos de crimes contra o patrimônio e os pobres são vítimas de crimes contra a vida, se assemelhando por motivos distintos às mulheres. O quadro trágico tem sido pintado com sangue da nossa juventude pobre, sendo desta o maior número de vítimas. O rol de medidas que possam assegurar a paz nas cidades requer como princípio basilar o respeito aos direitos humanos e uma interação entre as esferas de governo, além disso, a conjugação de ações de prevenção e repressão e ainda, canais abertos com a sociedade, para que sejam ouvidas sugestões e queixas oriundas da implementação dessas políticas.
Por fim, a questão da participação popular que também atinge o conjunto da sociedade. A democracia ainda não é uma das marcas dos governos municipais no Brasil. Governar em torno de alianças amplas e com a participação de todos, conjugando identidades entre forças políticas e sociais é um caminho difícil. É necessário reunir convicções no seio dos governos para levar adiante esta política. A participação popular, enquanto bandeira pode-se dizer, é uma forma de governar. A boa governança se faz ouvindo sempre os aliados, os diversos segmentos da sociedade e as instituições. O compromisso de incentivar a formação de fóruns, de espaços de participação popular onde a própria população tenha canais para expressar suas opiniões é uma necessidade do novo tempo e a marca de um bom governante.

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