terça-feira, 3 de novembro de 2009

O pensamento infantil sobre os fenômenos naturais


Entenda de que forma os pequenos criam teorias e explicam os fenômenos naturais até se aproximarem dos conhecimentos científicos

Thais Gurgel (thais.gurgel@abril.com.br)



"Este é o planeta e as estrelas. E estas são estrelas também. E o astronauta." Yolanda

"Tem uma Lua ajuntada (cheia) que parece uma bola e tem uma outra que é sem ajuntada." Yolanda

"Sem ajuntada é quando ela tá sumindo. Quando ela tá ajuntada é quando é meia-noite." Julia

"Aí, não é. Quando tá meia-noite, a gente tá dormindo. Então a Lua não tá ajuntada." Yolanda

Revirando a memória, todos nós recordamos de ambientes, passagens e sensações da infância. Mas você saberia dizer como costumava explicar a alternância entre o Sol e a Lua no céu? A criança tem uma maneira muito peculiar de entender o mundo e, à medida que cresce, se desenvolve, tem acesso a novas informações e experiências e esquece seu antigo modo de pensar.

O professor de Educação Infantil, como muitos outros adultos, presencia e vive essa evolução. Conhecer a maneira como os pequenos formulam as primeiras explicações para a dinâmica dos astros (veja o desenho ao lado) não é apenas reviver o frescor da visão sem as amarras dos primeiros anos de vida. Um educador que considera os processos por que passa a criança qualifica suas intervenções no contato diário com ela. Afinal, o que se quer é tornar cada vez mais sofisticada, coerente e ativa a forma de ela apreender a realidade.

Mais sobre desenvolvimento infantil

Reportagens

* Entrevista com Juan Delval
* Leia um clássico
* Pensador: Lev Vygotsky
* Pensador: Henri Wallon
* Pensador: Jean Piaget

Vídeo

* Pensamento infantil sobre os fenômenos naturais

Em rodas de conversa, é comum ouvir explicações curiosas sobre os fenômenos naturais, tais como: "O vento sopra o Sol para que ele não caia na Terra" e "A Lua segue o carro da gente pela estrada". Presente no cotidiano, a natureza está entre os primeiros aspectos sobre os quais os pequenos formulam teorias.

Um ponto importante para começar nessa aprendizagem é garantido já no primeiro ano de vida. O bebê adquire uma noção de abstração. Ele percebe que os elementos ao seu redor existem independentemente de os estar vendo - o conceito de permanência dos objetos.

Assim, ele passa a criar imagens mentais sobre as coisas - ele sabe que a mamadeira existe, por isso pode evocá-la mesmo quando não está em seu campo de visão. Com a aquisição da linguagem, a criança entra no território do simbólico: uma palavra, uma expressão corporal ou um desenho representam um objeto ou conceito e, com base na associação de alguns deles, cria-se uma ideia.

Com esses recursos, ela pensa sobre tudo o que vê, ouve e sente. Nesse contexto, entram em cena os famosos "por quês?". O fato, porém, é que os pequenos se põem muito mais questões do que expressam e as resolvem formulando teorias. Para isso, lançam mão de um repertório de informações e da observação dos fenômenos, relacionando-os de maneira muito particular. Uma característica desse processo é a de se colocarem como a figura central nas explicações - se eles estão dormindo e não podem ver o céu, a Lua não pode estar cheia (leia o diálogo acima). Esse princípio se liga à afetividade, que, segundo o francês Henri Wallon (1872-1962), é o que mais influencia a criança nas relações que estabelece entre as informações assimiladas. "É por isso que, quando ela pergunta 'por que fica de noite?', o adulto pode entender que ela está perguntando 'porque fica noite para mim?'", explica Heloysa Dantas, educadora estudiosa do pensamento de Wallon. "O adulto pode dar a explicação que achar conveniente, mas a que contentaria mais a criança em suas inquietações pessoais seria 'fica de noite para você poder dormir'."

Outras lógicas frequentes nas explicações infantis são o animismo e o artificialismo. Pela primeira, atribuem-se características e ações humanas aos mais diversos elementos da realidade ("O Sol vai dormir. Por isso, fica noite!"). De acordo com o segundo, entende-se que todos os fenômenos podem ser explicados por um processo de fabricação artesanal ("As montanhas se formam porque os homens colocam terra em cima"). Wallon define o pensamento infantil como sincrético, uma espécie de nuvem de elementos que vão se combinando para criar sentidos (veja o desenho abaixo e leia o diálogo acima).



“Este é o céu de noite. Aqui, a borboleta está dormindo, pintada de preto, porque tá escuro. Este é o céu de dia, com a borboleta vermelha porque tá claro.” Giovanna

"Por que a fivelinha não sai voando?" Monique

"Ela não tem asa para voar." João

"Tudo o que a gente jogar vai cair no chão?" Monique

"Vai! Só passarinho que não." Giovanna

"E o que puxa as coisas para o chão?" Monique

"Ímã!" Giovanna

"Nesta parte da Terra está de noite porque os raios do Sol não tão batendo aqui. Eles tão batendo do outro lado do planeta, que vai girando ao redor do Sol. Quando anoitece, é o Sol que está escondido atrás das nuvens." Anita

Como se vê, a lógica científica não é o principal parâmetro da criança para esclarecer o funcionamento das coisas. "Ela relaciona o que lhe parece adequado, sem necessitar submeter a ideia a convenções preestabelecidas", afirma Heloysa. Sem se dar conta, os pequenos criam metáforas para explicar a realidade. "Daí a riqueza poética de sua forma de pensar. Entender o Sol e a Lua como namorados brigados que nunca ficam juntos segue o mesmo padrão de raciocínio apresentado por Camões, em Os Lusíadas, ao tratar uma pedra grande por Gigante Adamastor. É algo da natureza do pensamento infantil que apenas os artistas não abandonam em prol da lógica prática."

É preciso ainda levar em conta que a criança constrói formulações de acordo com suas possibilidades cognitivas. Os conhecimentos científicos - complexos e abstratos que requerem um raciocínio hipotético-dedutivo - ainda são inacessíveis aos pequenos. Mas é na Educação Infantil que eles começam um percurso de aprendizagem e desenvolvimento que os tornará capazes de operá-los melhor.

O bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) diferenciou os dois tipos de conceito que convivem na compreensão da criança pequena sobre o mundo que a cerca: os científicos (assimilados na instrução formal) e os cotidianos (obtidos no convívio prático).

O pensador desenvolve sua teoria com base na ideia de que os primeiros saberes da criança sobre o mundo vão se sofisticando ou perdendo espaço para outros, mais próximos dos conhecimentos científicos. "Primeiro, ela conhece o cachorro da casa dela. Em seguida, vai entendendo que aquele cachorro é um ser vivo, para depois assimilar que pertence à espécie dos canídeos e também é um mamífero", explica Teresa Cristina Rego, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e especialista nas obras de Vygotsky.

As formulações criadas pelos pequenos nos primeiros anos de vida também estão ligadas a situações e elementos proporcionados pelo meio em que vivem. Ao ver uma foto de uma nebulosa (corpo celeste gasoso e nevoento), uma menina de 4 anos define: "É uma nave alienígena" - algo que dificilmente seria dito por uma criança de uma comunidade indígena isolada. A linguagem, portanto, é apenas uma das condições para o pensamento abstrato, que ajudaria a moldar esse olhar da criança e a sua forma de construir formulações.

Se a cultura influencia a observação e a explicação de fenômenos, também não se pode retirar da criança o papel principal do desenvolvimento de seu próprio pensamento. "Ela não se contenta em repetir o que é dado culturalmente. É ativa e produz em cima disso", argumenta Monique Deheinzelin, assessora da Escola Comunitária de Campinas, a 100 quilômetros de São Paulo.

Nessa construção, no entanto, alguns cuidados precisam ser tomados. Embora a explicação pessoal para os fenômenos naturais tenha grande importância no desenvolvimento infantil, cabe à escola aproximar os pequenos dos conhecimentos científicos. E isso vai se dando aos poucos. A criança pode até saber que está de noite porque os raios do Sol não batem aqui, em uma explicação que faria acelerar o coração de qualquer docente da pré-escola.

Na mesma conversa, no entanto, ela pode dizer que anoitece quando o Sol está escondido atrás das nuvens (leia a frase acima). Como analisa Zilma de Moraes Oliveira, professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Ciências Sociais e Letras da USP, em Ribeirão Preto, a 315 quilômetros de São Paulo, o docente não deve nem ignorar o raciocínio infantil nem impor a teoria adulta. "O educador deve criar um ambiente de escuta. É uma atitude de inclusão da criança em um ambiente de reflexão", diz. "Compreendendo a linha de pensamento dos pequenos, o docente localiza pontos para intervir", afirma.

domingo, 1 de novembro de 2009

García Lorca em todas as encarnações

“A poesia não quer adeptos: quer amantes”, disse certa vez o poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca, que viveu de acordo com suas palavras até ser fuzilado em 1938 por adeptos do regime franquista que se instalara em seu país. García Lorca foi uma das primeiras vítimas das cerca de um milhão que morreriam na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

García Lorca não era militante das causa políticas mas, mesmo assim, não abria mão da sua liberdade. Ao morrer por ela, tornou-se uma espécie de mártir para os escritores de sua geração. No Brasil, foi tema de trabalhos dos também poetas Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Vinicius de Morais, entre outros.

A ocasião de sua morte até hoje é desconhecida. Na sua cidade natal, Granada, onde foi refugiar-se assim que a situação apertou na Espanha, seus habitantes evitam falar do episódio. Acredita-se que o corpo do poeta tenha sido enterrado em uma vala comum na companhia de outras três pessoas: Francisco Galadí, Joaquín Arcollas e Dióscoro Galindo.

Esta semana, no entanto, começaram escavações na mesma região onde se crê que o escritor esteja enterrado. O objetivo da empreitada é identificar outros corpos que tiveram o mesmo fim de García Lorca.

Devido à incerteza sobre as circunstâncias de seu assassinato e seu sepultamento, pode ser que a partir dessas investigações sejam descobertos seus restos mortais em algum outro lugar, que não o que se acredita. Uma lenda regional diz que o corpo do poeta teria sido levado para sua casa – onde agora funciona um museu em sua homenagem – poucos dias depois de ter sido enterrado.

Lendas à parte, a família García Lorca é totalmente contra a exumação.

O filme “O desaparecimento de García Lorca” (The Disappearance of Garcia Lorca, 1996), baseado no livro de Ian Gibson, trata dessa dúvida quanto à circunstância da morte do poeta. No drama, um jornalista e admirador de García Lorca volta a Granada anos depois da morte de seu ídolo (interpretado por Andy Garcia) para tentar descobrir a verdade a respeito do assassinato.

Fonte: Opera Mundi


sábado, 24 de outubro de 2009

RJ: Sepe comemora acordo fechado com governo estadual


Foi anunciado, no dia 21, um plano de carreira para os professores da rede pública estadual com carga de 40 horas, que vai beneficiar mais de seis mil ativos e inativos. O acordo foi feito entre o governo do Rio de Janeiro e o sindicato dos profissionais de educação (Sepe).

Ficou estabelecido que os docentes incluídos na categoria Doc II (do 6º ao 8º ano do ensino fundamental e do ensino médio) passam a ser classificados no nível 4 do plano de carreira fixado para os profissionais de 20 e 16 horas. Já os professores Doc I (do 1º ao 5º ano do ensino fundamental) passam ao nível 6.

Agora, o governo irá enviar à Alerj esse projeto para ser debatido e aprovado pelos deputados. A implementação se dará a partir de janeiro de 2010. Segundo o governo do estado, as gratificações relativas ao mestrado e doutorados também serão regulamentadas no projeto de lei.

A decisão representa aumento de 40% nos vencimentos brutos dos professores e um impacto de R$ 46 milhões a mais aos cofres públicos do Estado no orçamento do próximo ano.

A inclusão desse segmento no plano é uma luta da educação estadual que começou há mais de 15 anos. No entanto, os funcionários administrativos continuam fora do plano. Na audiência houve o compromisso de se realizar uma nova reunião para discutir especificamente a situação destes servidores. No dia 27, uma comissão irá à Alerj para pedir a aprovação do projeto.

PCdoB: Comitê Central debate caminho brasileiro para o socialismo

 Renato Rabelo

Na abertura da 14° Reunião do Comitê Central, Renato Rabelo apresentou a proposta do Programa Socialista para o Brasil

A última reunião o Comitê Central antes da plenária final do 12° Congresso do Partido Comunista do Brasil teve início, nesta sexta-feira (23), com o debate da proposta de um Programa Socialista para o Brasil, cuja versão final foi apresentada por Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB, para ser submetida à deliberação pela direção comunista.



Estava pautado também o debate e a aprovação do projeto de Resolução Política ao 12º Congresso do PCdoB sobre a Situação Conjuntural do Brasil, o projeto de Resolução Política sobre a Situação Internacional, o Balanço do Trabalho de Direção do PCdoB 2005-2009, a proposta de Regimento Interno do 12º Congresso, além da apresentação do balanço da mobilização partidária ao 12º Congresso.

Na apresentação do Projeto de Programa Socialista para o Brasil, abrindo os trabalhos, Renato Rabelo ressaltou o esforço de síntese feito para produzir um documento mais enxuto, preciso e, por isso, que possa conquistar um maior número de leitores e, ao mesmo tempo, apresentar as teses ali defendidas com mais nitidez e clareza.

Ele chamou a atenção para alguns pontos. Primeiro, ressaltou que, ao tratar do Brasil, o Projeto enfrenta algumas opiniões negativistas sobre a história e a construção de nosso país, que existem mesmo no campo progressista.

Lembrou os dois ciclos de avanço civilizatório já vividos pelo país - o primeiro incluindo a formação do povo, da Nação e do Estado, e o segundo marcado pelo nacional desenvolvimentismo inaugurado pela revolução de 1930, com o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores, e com o progresso educacional e cultural. Mas cujos resultados são avaliados negativamente por análises controversas que ressaltam os problemas - entre eles a escravidão e o massacre das lutas pela liberdade - e esquecem o resultado positivo e grandioso da formação de um povo novo e uno, com uma cultura nova e uma civilização própria.

O segundo ciclo esgotou-se, lembra Renato. E a eleição de Luis Inácio Lula da Silva, em 2002, abriu uma nova etapa em nossa história, abrindo a perspectiva de um terceiro ciclo, um novo horizonte em cujo limiar o país se encontra.

Essa perspectiva resulta do desenvolvimento político do país e aponta para o início da transição para uma nova sociedade, a sociedade socialista. Mas isto ainda não basta, advertiu Renato. O projeto de Programa Socialista precisa apontar a transição, o caminho a ser trilhado para que se alcance este objetivo estratégico. Este caminho é o Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento, que o projeto de Programa Socialista denomina, muito corretamente, de "caminho brasileiro para o socialismo". E que precisa também ser apresentado de forma concreta, contemplando por exemplo as formas de financiar o desenvolvimento, parte que foi acrescida ao texto proposto à aprovação do Comitê Central.

Questões controversas

O debate travado no Partido sobre o projeto de Programa Socialista mostrou um amplo apoio às idéias ali apresentadas, destacou Renato. E ele destacou algumas teses que tiveram ampla repercussão. Uma delas é a da correlação entre o terceiro salto civilizacional e a transição para o socialismo. É um programa que "se encaixa no processo histórico brasileiro" e dá "concretude ao projeto estratégico" brasileiro, que é a conquista de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento e que, nestas condições, "está no nível da política atual". Não é portanto uma proposta abstrata. Outra tese de ampla aceitação foi a centralidade da questão nacional uma vez que um projeto dessa natureza não se desenvolve fora do contexto nacional. Sua característica é essencialmente antiimperialista e ele envolve toda a nação, exceto a parcela aliada aos interesses imperialistas. Além disso cresceu a ideia da busca de um socialismo brasileiro, consagrando a idéia de que não há um caminho único para a nova sociedade, e indicando a necessidade de construção desse caminho próprio, nacional.

Mas há também um conjunto de outras questões que Renato Rabelo considerou como controversas entre os comunistas. Uma delas é a tese do povo uno, novo e singular. Há povo negro, como muitos defendem? Não, pensa ele: há povo brasileiro, resultado de um processo histórico secular que amalgamou origens humanas americanas, africanas, européias e, mais tarde, asiáticas; há também micro etnias indígenas.

O essencial, pensa ele, é o reconhecimento de que os brasileiros formam um povo novo e uno. É preciso reconhecer que há tensões no meio do povo e que é preciso avançar em sua resolução pois não pode "haver nação forte com povo de deserdados".

Programa revolucionário e classista

Além disso há um questionamento do caráter revolucionário e classista do programa. Renato não tem dúvida a respeito: o programa é revolucionário e classista. Ele ressalta a questão da transição, que é o objetivo estratégico maior. E o ponto de partido para alcançá-la é a conquista do poder político estatal pelos trabalhadores da cidade e do campo, aliados às massas populares urbanas e rurais, às camadas médias, à intelectualidade progressista, aos empresários pequenos e médios e àqueles que se dedicam à produção e defendem a soberania da Nação. O Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento precisa representar um avanço em relação ao que já foi alcançado desde a posse de Lula, em 2003. Ele é o caminho, a transição, processo que não será feito com reformas parciais, mas reformas profundas que levam a rupturas. É um processo de acumulação de forças, que se faz com rupturas profundas. ele envolve a superação da fase rentista sendo, assim, uma forma de valorizar o trabalho e a renda dos trabalhadores ao apontar para a superação da defasagem hoje existente entre a renda do trabalho e a renda do capital. O Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento, lembrou Renato, tem essência anti-imperialista, antilatifundiária e antioligarquia financeira e seu objetivo é superar a fase neoliberal e a culminância do capital rentista e parasitário.

Outro tema lembrado por Renato Rabelo, e que ainda causa divergências entre os comunistas diz respeito à definição de proletariado. O que interessa, diz ele, é o conteúdo das formulações e, nesse sentido, lembrou que toda classe tem diferenciações em seu interior - e a classe trabalhadora também tem, da mesma forma, por exemplo, que a burguesia está dividida em frações de classe.

Ele se referiu também à questão ambiental. Não se pode destruir o planeta, ressaltou. Entretanto, a partir desta constatação, os países ricos - cujo desenvolvimento foi responsável por graves agressões contra o meio ambiente - lembrando que, hoje, eles tentam impor a mesma divisão internacional do trabalho que os beneficie e coloca no centro da economia e do poder mundial, e que representa uma enorme desvantagem para os países pobres.

Finalmente, Renato Rabelo enfrentou o argumento que adverte para o risco de "eurocomunismo" representado pelas mudanças que o Partido vive nos dias atuais. O eurocomunismo, disse, colocou a questão e a luta institucional em primeiro plano, sendo uma experiência européia que levou à liquidação do partido. Mas, ressaltou, os riscos de liquidação existem pela direita e pela esquerda. Se houve o eurocomunismo, houve também a experiência do Partido do Trabalho da Albânia, que também fracassou. No caso brasileiro, disse, o erro que cometemos não foi o de enfatizar a questão institucional, mas o contrário.

Cometemos o erro de, durante 15 anos, participar apenas parcialmente da batalha eleitoral, indicando poucos candidatos somente nas eleições proporcionais, e praticamente escondendo a legenda do Partido. E a participação comunista em governos e parlamentos é ainda pequena. A audácia de nossos tempos visa ganhar o tempo perdido, disse. Além disso, lembrou que o Partido defende uma reforma política com ênfase nos partidos e em seus programas e não nos candidatos, que é a única maneira de fortalecer as agremiações. Ressaltou, além disso, que o partido não atua apenas na esfera institucional, mas em três frente, de forma articulada: as frentes institucional, social e na luta de idéias.

De São Paulo,
José Carlos Ruy

sábado, 26 de setembro de 2009

Neurônios e materialismo dialético

Gás neurotransmissor unifica estados contrários no cérebro: ponto para a filosofia marxista?

O filósofo alemão Friedrich Engels, autor de Dialética da Natureza, não imaginou que a neurociência proveria exemplos práticos de sua primeira lei da dialética (foto: Wikimedia Commons). Minha geração, que hoje é sexagenária, viveu um período rico de embate de ideias na década de 1960, época em que pontificavam os princípios do materialismo dialético. Lembro bem desse embate, especialmente dos aspectos que se referiam à ciência. Nesse campo, o suprassumo de nossas leituras filosóficas era A Dialética da Natureza, do filósofo alemão Friedrich Engels (1820-1895). Nesse livro, Engels expôs os seus três princípios fundamentais da natureza: a lei da unidade e do conflito de contrários, a lei da passagem do quantitativo ao qualitativo e a lei da negação da negação. Sobre a primeira lei, Engels entendia que na natureza as coisas geralmente são determinadas pela ação mútua de dois polos opostos, e que a existência desses polos lhes conferia uma unidade. Assim, cada objeto ou fenômeno natural seria o resultado unificado da interação de forças contrárias. O problema era compreender isso aos 18 anos. Confesso que repetia, admirado, a concepção de Engels, escondendo minha dificuldade em aceitar de que modo um fenômeno podia ser ao mesmo tempo unificado e dividido. Os físicos tinham vários exemplos à mão, como o átomo, composto por prótons e elétrons, e os dois polos dos ímãs. Mas, na incipiente neurociência da época, os exemplos eram escassos. Fiquei surpreso, agora, ao achar tardiamente um exemplo prático da primeira lei da dialética, quando me deparei com uma descoberta importante que acaba de ser publicada por um grupo de pesquisadores franceses. Eles mostraram como o cérebro é capaz de controlar continuamente a sensibilidade dos neurônios, regulando-a para os altos e baixos do fluxo de informações do dia a dia. O neurônio e seus dois contrários Neurônios são células excitáveis, o que, na prática, significa que produzem sinais elétricos que codificam informações provenientes de outros neurônios ou diretamente do ambiente. A excitabilidade do neurônio é possibilitada por uma membrana que o envolve, capaz de separar os íons de dentro daqueles que ficam fora da célula, criando uma diferença de potencial elétrico sobre a qual ocorrerão os sinais do código neural. O cérebro precisa manter os neurônios “à flor da pele” enquanto estamos acordados, deixando-os prontos para disparar seus sinais de informação a qualquer momento e quaisquer que sejam as condições ambientais. Imagine a dificuldade. Você tem que ser capaz de entender o que um conferencista está dizendo, esteja o público em silêncio ou conversando. Tem que ser capaz de inserir a chave exatamente no buraco da fechadura no claro ou no escuro, e deve acertar o passo na direção certa, sozinho ou no meio de uma multidão.
Os dois elementos opostos que constituem o sistema nervoso: a célula verde é um neurônio piramidal (excitatório) em uma fatia do córtex cerebral e as células vermelhas são neurônios inibitórios (foto: Thomas Nevian, da Universidade de Berna, Suíça). Para isso, cada neurônio tem a sua excitabilidade regulada continuamente – entre o silêncio e a insensibilidade do sono e o alerta e a extrema vivacidade da vigília. O caso é que a excitabilidade de cada neurônio é regulada pela interação de dois contrários: excitação e inibição. E essas funções contrárias são providas por tipos opostos de sinapses (os pontos de contato e troca de informações entre neurônios): excitatórias e inibitórias. A coisa funciona assim: nos circuitos cerebrais, cada neurônio recebe milhares de sinapses de outros neurônios. Algumas são excitatórias e outras, inibitórias. Enquanto as primeiras mantêm o neurônio “à flor da pele”, as segundas o tornam menos sensível, bloqueando a informação incidente. Quando é necessário aumentar a sensibilidade do neurônio, predomina a atividade excitatória, e o contrário ocorre quando é necessário “adormecer” o neurônio um pouco. Tudo isso no meio do bombardeio constante de informações (excitatórias) provenientes do meio ambiente que muda a cada momento: sons, movimentos do corpo, luzes, imagens e assim por diante. Neuroplasticidade homeostática A questão fundamental da biologia do neurônio, então, é saber como se dá a regulação dinâmica da sua excitabilidade, isto é, de que modo os circuitos conseguem manter a excitabilidade neuronal, aumentá-la ou diminuí-la conforme as circunstâncias. Em outras palavras: precisamos saber como o cérebro controla a sua própria excitabilidade, neurônio a neurônio, momento a momento. Essa questão foi abordada por um grupo francês liderado por Philippe Fossier, do Instituto de Neurobiologia Alfred Fessard, em Gif-sur-Yvette (França). Os pesquisadores definiram a capacidade de regulação do nível de excitabilidade dos neurônios como neuroplasticidade homeostática, aproveitando dois conceitos importantes (e contrários!): plasticidade – a capacidade de mudança do cérebro em resposta à dinâmica do ambiente – e homeostase – a capacidade de estabilização funcional frente a essa mesma dinâmica ambiental. A hipótese que propuseram é que os neurônios mantêm relativamente constante a sua sensibilidade ao ambiente – apesar das turbulências deste – por meio de um mecanismo de regulação do equilíbrio entre duas forças contrárias: a excitação e a inibição. Os pesquisadores trabalharam com experimentos relativamente simples. Cultivaram fatias de córtex cerebral de ratos, mantidas vivas e funcionais em laboratório, e nelas combinaram a estimulação elétrica simultânea de um grupo de neurônios com o registro dos sinais elétricos produzidos em neurônios isolados do mesmo circuito. Nessas condições, verificaram que o balanço entre excitação e inibição em cada neurônio cortical era constante: 20% de excitação, 80% de inibição. Ou seja: ao estimularem os neurônios com alta ou baixa frequências, o balanço permanecia o mesmo. Esse tipo de experimento tem a vantagem de tornar possível a adição de drogas ao frasco de cultura, e assim alterar controladamente a resposta do neurônio perante substâncias ativadoras ou bloqueadoras de cada etapa dos processos bioquímicos da excitação e da inibição. E o modo de ação dessas substâncias revela os mecanismos bioquímicos do processo. Um gás no controle da contradição dialética do córtex
Os neurônios escuros são nitridérgicos, isto é, capazes de produzir óxido nítrico. Eles são os mantenedores do balanço dialético do córtex cerebral (foto: Marco Rocha Curado, que defendeu esta semana tese de mestrado sobre a morfologia dos neurônios nitridérgicos do rato na Universidade Federal do Rio de Janeiro). Os experimentos realizados pela equipe francesa encontraram o responsável pela neuroplasticidade homeostática: o gás óxido nítrico. Essa estranha substância (um gás no cérebro?) é sintetizada por proteínas existentes dentro do neurônio e em outras células e imediatamente se difunde através das membranas para ativar moléculas dentro de todas as células que encontre no caminho, sejam neurônios, células de vasos sanguíneos ou quaisquer outras. O óxido nítrico é produzido por neurônios especiais distribuídos em mosaico em todo o córtex cerebral e demais regiões do cérebro. Esses neurônios possuem a enzima que sintetiza óxido nítrico e, segundo a equipe de Philippe Fossier, são os mantenedores do balanço excitação/inibição que garante a estabilidade da excitabilidade dos circuitos neuronais. Parafraseando Carlos Drummond de Andrade: não é uma boa rima, mas é uma boa solução. Desse modo, nosso cérebro está dialeticamente preparado para manter-se capaz de responder às informações provenientes do ambiente, ou as produzidas pelas suas próprias maquinações interiores, independentemente das oscilações de ruído, luminosidade ou movimento corporal. Engels não podia supor que a sua primeira lei da dialética encontraria exemplos na neurociência. E muito menos os neurocientistas como eu poderiam supor que suas evidências poderiam ser associadas ao marxismo! Essa constatação não daria para consertar o mundo, mas é uma associação inusitada...

SUGESTÕES PARA LEITURA F. Engels (2000) A Dialética da Natureza. Editora Paz e Terra, 238 pp. N. Le Roux e colaboradores (2006) Homeostatic control of the excitation-inhibition balance in cortical layer 5 pyramidal neurons. European Journal of Neuroscience, vol. 24: pp.3507-3518. N. Le Roux e colaboradores (2009) Roles of nitric oxide in the homeostatic control of the excitation-inhibition balance in rat visual cortical networks. Neuroscience, vol. 163: pp.942-951.

Roberto Lent Professor de Neurociência Instituto de Ciências Biomédicas Universidade Federal do Rio de Janeiro 24/09/2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sociedade Civil preside o ConSaúde

Pela primeira vez em sua história, a presidência do Conselho Municipal de Saúde (ConSaúde) será exercida pela sociedade civil. Maria Auxiliadora, representante da Diocese de Petrópolis, foi eleita por unanimidade na reunião ocorrida terça-feira à noite, no auditório do Centro de Saúde. “A proposta é fazermos uma ação em conjunto, buscando medidas práticas e melhorando a saúde de nosso município”, frisou a nova presidente do ConSaúde. A eleição dela somente foi possível porque Carlos Henrique, coordenador do Fórum das Associações de Moradores de Petrópolis, Thiago Pires, diretor da Federação das Associações de Moradores de Petrópolis (Fampe), e a secretária de Saúde, Aparecida Barbosa, retiraram suas candidaturas em prol da unidade do Conselho. Durante todo o dia de terça-feira, representantes da sociedade civil estiveram reunidos discutindo e se articulando para a eleição à noite. Durante os encontros, sempre pautada pela união da sociedade civil, representada pelas lideranças comunitárias e representantes de ongs e entidades, chegaram a um consenso com Thigo e Carlos Henrique, com apoio de representantes dos sindicatos e de outras lideranças, como Joel Martins, da Comunidade do Alemão, retirando seus candidatos e apoiando Maria Auxiliadora. “A participação deles nas discussões e articulação para termos uma chapa única no Conselho foi fundamental para nossa eleição” comentou Maria Auxiliadora. Para secretária executiva do ConSaúde foi eleita a representante do governo, Sheila Frederico de Souza Guimarães, e para a vice-presidência, Carlos Henrique. Para Maria Auxiliadora, a eleição do ConSaúde mostrou o amadurecimento do conselho e a consolidação da democracia “elegendo o primeiro presidente da sociedade civil e, melhor ainda, uma mulher”. Ainda falando sobre este momento único na história do Conselho, Maria Auxiliadora disse que chegou o momento da sociedade civil, agora na presidência e na vice-presidência, se mobilizar e dar sua contribuição para melhorar a saúde do município. “Não adianta só cobrar do governo. Temos que fazer a nossa parte” frisou, lembrando que desde a instalação do ConSaúde a sociedade civil sempre participou dando a sua contribuição, mas sem nunca estar na presidência. “A escolha de Maria Auxiliadora, em um consenso pacífico e consciente, mostra o amadurecimento deste conselho e prova para nós, administradores, que estes representantes da sociedade civil estão preparados para assumir este conselho e participar mais ativamente e com maior conhecimento das decisões na área da saúde”, declarou a secretária Aparecida Barbosa. Thiago Pires disse que durante a reunião ficou claro que a secretária de Saúde não seria eleita, “pois tínhamos 16 votos”. Segundo ele, havia uma recomendação do Ministério Público para que a secretária não assumisse a presidência do Conselho, o que segundo ele, reforçou a decisão da sociedade civil em eleger um representante para a presidência. Ele contou que Aparecida Barbosa leu a recomendação e explicou que, segundo o parecer da assessoria jurídica, não a impedia de ser candidata.

domingo, 20 de setembro de 2009

PARABÉNS CASCATINHA PELOS SEUS 136 ANOS!

  
Por Wilma Borsato

17 de setembro de 1873.
Naquele dia, D Pedro II por decreto, autorizou o funcionamento da COMPANHIA PETROPOLITANA DE TECIDOS, sem jamais imaginar que por trás dos lucros financeiros que o empreendimento pudesse trazer à jovem cidade, estava fazendo surgir à beira do Caminho Novo, no tão inexpressivo vilarejo, uma comunidade aguerrida, que mesmo após 136 anos de casos e descasos, não foge à luta
Muito devemos a Bernardo Caymary, um visionário cubano que não aceitava as ideias escravocratas e escolheu o vale para sua indústria; aos portugueses, espanhóis, gregos e tantos outros imigrantes que por ali passaram. Mas em especial, aos italianos que chegaram vindos de sua terra natal, em busca de trabalho, em busca de sobrevivência, ou até mesmo fugindo dos maus tratos em fazendas brasileiras.
As características e algumas tradições daquela “bona gente” que chegou a ser mais de 40% da população do bairro por volta de 1930 (entre natos e descendentes) se fazem presentes ainda hoje: a alegria, as brincadeiras, a festa aos padroeiros, o foguetório, a fé, o trabalho e principalmente a coragem para enfrentar as adversidades, vive em seus descendentes.
Algumas lutas foram travadas ao longo desses anos:
A indústria que fez o lugarejo prosperar ao ponto de ter vida própria, com escola, hospital, creche, posto de saúde, cooperativa, clube, sede própria de escoteiros, cinema, ranchos, bandas, grupo de teatro, etc..., foi a mesma que transformada em Companhia Imobiliária, somada à irresponsabilidade do poder público, permitiu o crescimento desordenado do lugar, transformando-o por completo e tirando-lhe o que tinha de melhor: a qualidade de vida de seus moradores.
Ainda assim, como Davi enfrentando Golias, a comunidade uniu-se. Há 25 anos formou a ADMA (Associação em Defesa aos Mananciais do Alcobaça) e conseguiu impedir a transformação da Floresta do Alcobaça, em área de especulação imobiliária pelo extinto BNH. A ameaça continuava. A comunidade manteve-se perseverante, até que hoje a floresta pertence ao IBAMA e podemos dormir tranquilos.
Caminhadas pela floresta, acompanhadas por guias, podem ser agendadas na sede da associação (ao lado da antiga estação em Cascatinha).
Mostrando a força da união, quando a Matriz de Cascatinha, patrimônio tombado pelo IPHAN, estava com seu belíssimo teto desabando pelo ataque de cupins, suas paredes precisando de pintura e a estrutura, de reparos, o povo do lugar contribuindo com seus parcos recursos e contando com a boa vontade de outros amigos anônimos, impediram que tivéssemos hoje o prédio interditado e sem condições de uso.
Fato semelhante aconteceu com a antiga estação de Cascatinha. Por muito tempo a comunidade insistiu junto à Rede Ferroviária, para que não deixasse desaparecer o prédio que tantas histórias traziam ao bairro. Foram mais de 20 anos de luta incessante para a transformação do espaço, no Centro Cultural onde está preservado, da melhor forma possível ao alcance da comunidade e sem contar com recurso público, as quase 2.000 fotos e objetos oferecidos pelos moradores e tão caros à memória daquela gente.
O Centro já registrou a presença de milhares de visitantes, inclusive vindos do exterior. Escolas agendam visitas monitoradas e universidades buscam-no para pesquisa. Infelizmente não há como mantê-lo aberto durante a semana; o que talvez venha dificultando a visita do Presidente da Fundação de Cultura para conhecer o local.
Hoje, mais uma vez, estamos apreensivos: que destino terá o magnífico prédio da Companhia Petropolitana? No abandono em que está, realmente não pode ficar. Mas queremos discutir sua destinação. É importante que os interessados em adquiri-lo, saibam o seu significado para a cidade e principalmente para nós. Poderemos ser parceiros em sua recuperação ou mais uma vez, lembraremos o hino: verás que um filho teu não foge à luta, nem teme quem te adora à própria morte, terra adorada... ”
Não é a toa que Cascatinha já deu a Petrópolis três prefeitos e uma vereadora, descendentes daquela brava gente que por ali passou. Não foram filhos ou netos de fidalgos.... mas daquela massa trabalhadora que até hoje constrói a riqueza da nação.
Por tudo isto e muito mais, PARABÉNS CASCATINHA
Petrópolis,17 de setembro de 2009